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Por Rosane Possamai de Freitas | Maio de 2019

 

Queremos ocupar nosso espaço no mundo, esse estimulo, é o que nos dá a liberdade de fazermos escolhas, estas nos trazem sentido para estarmos a serviço do nosso propósito, à serviço da vida.

Quando estamos muito distantes de nosso propósito, algo acontece, seja um acontecimento isolado, ansiedade, nervosismo, desiquilíbrio financeiro, um acidente, doença, entre outros, como sensores, sinalizando que é preciso ter um movimento diferente.

Esses sensores, quando acionados, pedem um movimento diferente. Nossos movimentos acontecem conforme nossos pressupostos, paradigmas, crenças, vivências, mapas de mundo. Através de conhecimento de vida, estudos, viagens, estímulos externos, e assim, a consciência vai expandindo.

De acordo com a expansão da consciência, percebemos que todo fenômeno tem uma essência. Ao observar, desenvolvemos a percepção. Nossas percepções, permitem que sejamos observadores de nossos pensamentos, sentimentos e emoções. O sentido que damos no momento que aconteceu o fenômeno e foi para consciência, fica como registro na consciência. A vivência que dá sentido. Dentro da Fenemologia, o que importa é o que está na consciência.

Tendenciamos a ‘querer’ permanecer no conforto, no bem-estar, acreditamos que as emoções que nos causam desconforto, devem ser mudadas, como um botão de liga/desliga, onde se algo nos provocou desconforto, devemos substituir por outra atividade que nos distraia e/ou faça que a emoções boa chegue rapidamente. Eis o ponto importante, o que está oculto nesta emoção?

Observando atentamente as emoções, é possível identificar o que está oculto, esta identificação é um direcionador no caminho evolutivo do nosso ser, do nosso propósito de vida.

Esses direcionadores estão vinculados aos princípios do pensamento complexo, do filósofo francês Edgar Morin.

Segundo Morin, Ciurana e Motta (2003, p.33) o primeiro é o: “Princípio sistêmico ou organizacional: permite religar o conhecimento das partes com o conhecimento do todo e vice-versa.” Todos somos um, quando eu mudo o outro muda, provocando evolução na teia sistêmica.

O segundo princípio, reforça que pertencemos ao todo:

 

“Princípio hologramático: assim como num holograma, cada parte contém praticamente a totalidade da informação do objeto representado; em qualquer organização complexa, não só a parte está no todo, mas também o todo está na parte. Por exemplo, cada um de nós, como indivíduos, trazemos em nós a presença da sociedade da qual fazemos parte. (MORIN, CIURANA e MOTTA, 2003, p.34).”

 

Nesta teia sistêmica, estamos na constante espiral evolutiva, é possível perceber através do terceiro princípio, o da retroatividade, onde, a fim de romper a causalidade linear, dentro de um olhar, com o propósito de mudar, dentro de um tempo e ritmo, até que o movimento necessário aconteça, permitindo a evolução. Segundo Morin, Ciurana e Motta (2003, p.35) “[...] não só a causa age sobre o efeito, mas o efeito retroage informacionalmente sobre a causa, permitindo a autonomia organizacional do sistema.”

Neste pertencimento evolutivo, o quarto princípio da recursividade: nos apresenta a dinâmica autoprodutiva e auto-organizacional, que, de acordo com Morin, Ciurana e Motta (2003, p.36) “[...] uma ideia primordial para se conceber a autoprodução e a auto-organização. [...] o processo recursivo produz-se/reproduz-se a si mesmo, evidentemente com a condição de ser alimentado por uma fonte, reserva ou fluxo exterior.”

O quinto princípio que é o de autonomia/dependência: este princípio introduz a ideia de processo auto-eco-organizacional.

Para a evolução a desordem se faz necessária, no sexto princípio, o dialógico dentro do fluxo tem uma ordem, desordem e uma nova organização. Segundo Morin, Ciurana e Motta (2003, p.36) “Não seria possível conceber o nascimento de nosso Universo sem a dialógica da ordem/desordem/organização.” [...] a dialógica entre indivíduo e sociedade deve ser pensada num mesmo espaço.” Nesta, ordem, desordem e reorganização, o observador, observa a si mesmo, provocando um movimento.

Quando a integração e o movimento acontecem, colapsamos o evento, acontece então, efeito de ressonância. Quando eu mudo o outro muda. Todo o sistema é mexido, estamos interligados.

Neste colapsar o sujeito constrói a realidade, dentro do sétimo, o princípio da reintrodução. Onde é possível a cocriação, dentro de questões a serem observadas, o que realmente quero? O que realmente é? O que realmente quero que seja? Como condiciono?

No sétimo princípio, o de reintrodução do sujeito cognoscente em todo conhecimento:

 

“O sujeito não reflete a realidade. O sujeito constrói a realidade por meio dos princípios já mencionados. A construção é incerta, pois o sujeito encontra-se inserido na realidade que pretende conhecer. Não existe o ponto de vista absoluto de observação nem o meta-sistema absoluto. Existe a objetividade, embora a objetividade absoluta, assim como a verdade absoluta constituam enganos.” (MORIN, CIURANA e MOTTA, 2003, p.37).

 

Neste sétimo princípio, reforça o quanto nossos registros e crenças podem ser limitadores evolutivos, onde o fenômeno se repete, até ser curado por completo. Dentro do “eu vejo você”.

Muitas vezes em nome do amor cego, nos colocamos em posições, ou assumimos papéis que não nos cabem. Até mesmo, quando alguém dentro do sistema familiar não é visto, reconhecido e assumido. Ao assumir o “vejo você”, o fluxo segue, a ordem do amor se faz. O entrelaço quântico acontece, o observador colapsou o fenômeno, aconteceu a evolução na teia sistêmica.

Dentro do olhar sistêmico, o deixar fluir, deixar levar, perceber o movimento que o corpo quer fazer. O corpo atua na percepção, ao observar o que o corpo sente e qual o movimento que ele quer fazer, colapsamos o fenômeno, e a ressonância evolutiva acontece.

Sendo assim, o autoconhecimento é o princípio da visão sistêmica.

Com a riqueza do que foi, aprendo e sigo.

 

*Artigo desenvolvido, em 2019, para a disciplina: Fundamentos das Constelações I – Visão sistêmica da vida e Fenomenologia, ministrado por: Profª. Drª. Eliana M Sacramento Soares e Prof. Dr. Evaldo A Kuiava, no curso de Especialização em Constelação Sistêmica, pela Universidade de Caxias do Sul e CELPI.

 

 

REFERÊNCIAS:

HELLINGER, Bert. Ordens do Amor. São Paulo: Editora Cultrix, 2003.

CAPRA. F.; LUISI, P. L. A visão sistêmica da vida: uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas. São Paulo: Cultrix, 2014.

MORIN, Edgar; CIURANA, Emilio-Roger; MOTTA, Raúl Domingo. Educar na Era Planetária. O pensamento complexo como Método de aprendizagem no erro e na incerteza humana. São Paulo: Cortez Editora, 2003.

VASCONCELOS, Edjar Dias de. A Fenomenologia da Percepção. Merleau Ponty. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=NADp3Ki2CIo>. Acessado em 17 de junho de 2019.